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REPUBLICAÇÃO 9
Em certos momentos da vida, temos a impressão de sermos tomados por uma inutilidade ou vazio sentidos no íntimo, questionando os objetivos de nossa existência, como se nada do que vivemos parecesse fazer sentido. Nos damos conta do quanto sofremos com as perdas, e, numa atitude incosciente de autoproteção, concentramos nossa atenção nesse lado, que parece ser o mais cruel da vida: o lado das perdas.
Aliás, as perdas se iniciam logo que saímos do útero, perdendo seu aconchego, sua proteção. Nesse raciocínio, os menos otimistas podem concluir que começamos nossa vida em perdas e na perda continuamos. No entanto- e é o que parece um paradoxo- sempre que perdemos algo, outras possibilidades nos surgem. Ganhamos, por exemplo, os braços do mundo quando perdemos o aconchego do útero. E assim vamos, perdendo, seguindo a ganhar o novo enquanto experiência.
Perdemos a inocência da infância, e com isso vamos ganhando a capacidade de questionar, abrindo as portas para o novo mundo que nos vai se descortinando. Fechamos janelas e as deixamos para trás. Isso, na realidade, parece resumir o crescimento.
Perder alguns direitos e conquistar outros fazem parte desse processo. Perdemos o direito de chorar bem alto quando algo nos é tomado. Perdemos o direito de falar tudo o que queremos, sem o medo de ser reprimido. Nasce o receio de dar risadas escandalosas (meu filho dá ums deliciosas de ouvir). Tememos comentar o quanto nossa tia engordou. Vamos crescendo e aprendemos que nem sempre podemos ser tão sinceros. E, de tanto ganhar- peso, pelos, altura, o mundo; e receios, e medos, e vazios- chegamos aos pontos de conflitos, e o mundo nos parece inadequados aos nosso sonhos. E sonhamos tanto...! Até cairmos na real. E, quando caímos na real, tememos a luta pelo esforço de nos tornarmos equilibrados, contidos, ponderados. Chegamos ao absurdo gravíssimo de perdermos nossa espontaneidade.
Neste momento nos cobramos a utilização do raciocínio, a razão acima de tudo, sob a justificativa de que o que nos diferencia do animal é a capacidade de organizar nossas ações de forma lógica e racionalmente planejada. Ganhamos um carro novo, uma companhia, um diploma. Ao passo que perdemos o direito de gargalhar, andar descalço, tomar banho de chuva, lamber os dedos.... Não tascamos mais aquele beijo estalado em quem gostamos, mas apertamos as mãos de todos. Ganhamos novos amigos assim, um novo emprego, um novo salário, honrarias, e até mesmo a chave da cidade....
E assim, ganhamos tempo enquanto envelhecemos.
E percebemos que ganhamos rugas, umas dores, estrias, celulite, aquela barriga, o brilho no olhar, esquecemos os sonhos, deixamos de sorrir, perdemos a esperança... Estamos envelhencendo, e compreendemos que as perdas fazem parte, muitas vezes sem nos dar conta que o sol continua brilhando. Portanto, que façamos uma oração à nós mesmos.
Que cresçamos sem envelhecer simplesmente! Que tenhamos as dores nas costas, mas procuremos quem nos massageie! Que tenhamos rugas e boas lembranças! Que tenhamos juízo, mas cultivemos o humor e um pouco de ousadia! Que sejamos racionais, mas lutemos por nossos sonhos!
Afinal, o que é o tempo que temos nessa vida? Nada em relação com nossa grande e individual missão, que é a busca pelo conhecimento de nós mesmos, num exercício de cada mais estabelecer o contanto com o que de mais divino temos dentro de nós, e, consequentemente, irradiar toda a luz que descobrimos, na certeza de que os outros também possuem sua luz a nos iluminar por vezes que estamos na escuridão.
E que missão!
Http://umcasal.blogspot.com
Escrito por Ivan às 14:59:00
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